16 de abril de 2018

Não terá teu registro na nota

Quando ela chegar não vai ter volta
E no desembarque é feita a troca,
Não há devolução de mim, quero que saiba os termos
Meu poema é a nota, toma tua via

Que eu vou me vender por ali, e na feira tuas coisas
Debaixo do braço entre tanto, tua carta, teu selo, endosso
Tudo o que fiz, a culpa
Me cobro sempre a experiência

De lá parto pra gravar as frases, encontrar nela os traços, socorro e o que me dê passagem
Quem sente e beba sem ter que voltar
Quem escute as massas que passam em êxtase
Exaustidão e labuta, festa e síntese
Alguém, pelo amor de deus, que me dê passagem

Se eu não sei nem lembro do gosto do amor
Quem dirá, sem ti, de como se amar
E como amar emprestado, da noite pro dia,
Casualmente amar

Consigo agora, não fujo à desgraça
Compro teu afago nas bancas
Cigarro e tesão, sempre em baixa
Minha marca esgota e aprendo a fumar diferente

Se ela chega é o fim de um éon,
Que o novo garanta a minha palavra,
Tudo em versos me pertence,
Das forças que eu guardo desde a partida
Apalpo o futuro de cima à baixo

Depois do gênese serei eu mesmo
De antes de ti, de sempre
Fumante, cético, bondoso cítrico
Me lembra assim, imortal

3 de janeiro de 2018

A derradeira pergunta

A luz agora se apaga
Se afasta, esmaece,
Minhas mãos tentam trazer de volta um corpo etéreo em movimento

Como se antes dela cego eu fosse,
Até o banho de estrela trazer plenitude
Hoje grito em oásis negro sem oxigênio
Apelo no espaço que não o propaga

Como o próprio criador
Condenado a dizer as palavras,
A ter a si que a outra opção é o silêncio
Sobrevivente da própria entropia

Enquanto a única fonte de acalento me escapa
Me faço a derradeira pergunta
Ainda que eu refaça com outras estrelas teu cuidado
Extraia de tudo a mais singela poeira da vida

Se valerá o medo da força que a acaba
Se valerá ver tantas vezes a mesma Eva traída

Faz-se o escuro

8 de dezembro de 2017

Decreto

Tu me deixou moribundo na porta de casa
O que sobrou ficou na tua cama,
Assombra teu quarto,
eu repito.

Quantas vezes forem precisas, direi
Pra que tu sinta meu cheiro e escute minha voz
Veja meu vulto e letra
Esbarre com as minhas promessas

Sobre quantas vão vir agora, não sei
Prefiro que guarde decretos a versos:
A dor do assassino não refaz o destino
A decisão é que conta; nem dó nem saudade inocentam

A verdade é que quem não chorar por último amou menos
Há, porém, sempre um dia em que se amadurece
E quando for a tua alma apunhalada,
lembra quem te amou por um milhão de cartas

Lembra de mim, meu bem, da minha dor
Lembra da cor da minha barba e do meu medo
Lembra do meu crime,
mas lembra

Eu nunca quis errar, nem partir,
Mereci um tanto, menos adeus e silêncio
Quando sentir como eu sinto,
Diz o meu nome bem alto, compra meu livro
Escreve uma carta pro meu endereço

Chora por mim também,
Dessa vez de verdade

26 de novembro de 2017

Te sobrevivido

Quando eu te beijei, você lembra,
Dentre todas as coisas que eu disse
Como era aquela a carta final?
Como eu era capaz agora de tudo?

Se eu podia tudo, era porque te tinha,
O desastre anunciado da minha vitória
A dependência dos meus castelos de areia

Não tarde demais eu percebo,
A vitória em estar acordado,
Se tão bom for ter te amado,
Melhor ainda te sobrevivido

Porque um Leão solitário é triste
Vivendo de sobras por detrás das barras
Mas quando ruge, lhe sobram palmas
Um leão abatido é ainda um leão

23 de novembro de 2017

Inventário

Meu teclado prevê minhas palavras,
e minhas palavras escapam amargas
nem as canetas esquecem como é escrever que te amo
Repetem teu nome por mim

Na cama por vezes meu corpo respeita teu espaço
No bar, bebe menos cerveja
Na caixa de sapatos, ficam no topo tuas fotos, tuas cartas
No silêncio, teu nome e no jardim o que é teu, na estante teus livros

Na minha boca teu gosto, nos meus sonhos tua voz
E em tudo o que é meu, teu vazio
Quem não me conhecera, quando o fez sempre soube,
O meu dia sobrevive respirando memórias

Dentro do quarto e do poema,
Eu vigio inventário que é teu
O problema é que eu ando cego de dor
E a mãe sempre dizia “você sempre quebra tudo”

23 de outubro de 2017

Era um presságio

‘’E desde que eu entrei em contato com a teoria,
toda a vez que eu saio de um carro
imagino que em alguma realidade paralela
a minha versão foi atropelada.’’

‘’Tu acha que em algum universo
a gente não ficou junto?’’
Trememos abraçados e eu disse que não sabia,
mas definitivamente esperava que não

Não era uma questão de espaço, mas de tempo
e resta saber se nessa versão desgraçada em que fiquei
morro de saudade, supero ou me adapto
com vislumbres de um mundo que não é meu

E se eu pudesse eu iria em uma cruzada
pra destruir tudo o que não tem o teu nome
Em solidariedade a quem tu nunca amou
ou já não ama mais






9 de outubro de 2017

É a tragédia de tudo o que poderia ser e o peso de tudo aquilo que já não é

Você me quebrou eu continuo aqui, 
sambando no absurdo e tentando me desvencilhar
Bebendo cerveja, ganhando estrias, rugas, magoas
Fumando um maço a cada dois dias e à procura de um emprego

Levo uma bandeira no bolso o tempo todo
Em parâmetros nacionais estou numa idade boa pra morrer em guerrilha
e que boa seria a dádiva da extrema unção, sem suicídio
Você sentiria minha falta?

Se vai bem, que bom
Sempre parece que sim

Ainda penso, sabe, que pelo meu jeito e a minha devoção,
pelo meus olhos e cartas, pelos poemas,
Dava pra saber que eu só tinha uma chance de amar,
que eu só tinha chance pra viver uma história de amor

Antes de ficar louco, careca, canceroso
deixando meu corpo e tudo morrer aos poucos
Esses dias eu sonhei que você escrevia que eu podia me matar
o teu silêncio quase me dá razão


Você já leu os meus poemas e as minhas referências
e viu minhas fotos e ouviu as músicas das quais eu gosto?
Esses dias eu sonhei que você aparecia por aqui e eu fugia
e tentava desesperadamente morrer

Esses dias eu sonhei que encontrei a cadela que fugiu
Mas foi do nada e faz tanto tempo
Ela já era velha, mas eu queria ter visto o resto daquela vida
Eu queria poder superar essa morte em paz

Ia tudo mal, é verdade, e o fim talvez chegasse
Mas eu queria ter adivinhado e estado de acordo
Nunca tive problema em encarar tragédias
Porque ao fim tenho certeza de que não havia outro destino

e eu queria que ela tivesse voltado pra casa e ficado aqui até
toda a vida ir embora em paz